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Hoje agradeci o Sol

Hoje agradeci o Sol

Foto do escritor: Carla Mota
Carla Mota
14 de fev.
2 min de leitura

Hoje esteve sol.


Ao fim de três semanas consecutivas de chuva, hoje esteve sol.


E eu só conseguia agradecer por poder estender a minha roupa.


Pode parecer uma coisa pequena. Mas não é.

Durante semanas, foi o desumidificador ligado aos bocadinhos, a janela aberta só o suficiente, a roupa espalhada pela casa numa tentativa quase frustrada de a secar. Pequenos incómodos que desapareceram assim que o sol apareceu. E foi nesse instante, enquanto estendia roupa, que me ocorreu outra realidade.


Há quem não tenha roupa para estender.

Há quem não tenha onde a estender.

Há quem tenha visto o vento e a chuva levarem tudo.


Fala-se muito de reconstrução em termos financeiros.

De seguros.

De apoios.

De recomeços.


Diz-se que o dinheiro se volta a ganhar.


Mas quase não se fala do que fica por dentro.

Como se sobrevive psicologicamente a perder tudo?

Como se volta a sentir segurança quando o som do vento passa a ser ameaça?

Como se volta a dormir descansado quando a chuva deixa de ser romântica e passa a ser medo?


Já ajudei com aquilo que estava ao meu alcance.


Mas tenho pensado noutra dimensão da ajuda.

Não na ajuda que repõe o que foi perdido.

Na ajuda que permite voltar a estar bem.

Talvez não esteja em grandes gestos.

Talvez esteja em presença.

Em comunidade.

Em não deixar ninguém atravessar o silêncio sozinho.


Porque reconstruir uma casa pode ser relativamente rápido.

Reconstruir a sensação de segurança pode levar muito mais tempo.


Hoje agradeci o sol.


Mas também pensei que, enquanto houver alguém a recomeçar do zero, o nosso papel não é apenas ajudar a reconstruir paredes. É ajudar a reconstruir chão emocional. E isso começa por não esquecermos.


Mas é aqui que precisamos de ir mais longe.

Não basta reagir depois da tragédia. É urgente prevenir antes da próxima.


Tempestades desta dimensão podem ser menos frequentes, mas as cheias e os incêndios fustigam o nosso país há décadas.


Ano após ano repetem-se cenários semelhantes. Ano após ano contamos prejuízos. E continuamos excessivamente dependentes da resposta de emergência.


Precisamos de soluções estruturais.

Precisamos que o Governo pense estrategicamente e crie uma estrutura permanente de prevenção e resposta, uma equipa técnica multidisciplinar dedicada à antecipação, mitigação e gestão destes fenómenos.


Que estude exemplos de países que conseguiram reduzir impactos.


Que analise modelos de planeamento urbano, proteção civil e apoio psicológico pós-catástrofe.


Que adapte o que funciona à nossa realidade.

Mas isto não é apenas responsabilidade governativa.

É responsabilidade coletiva.


Se alguém tiver uma ideia (por simples ou imperfeita que pareça) que a escreva. Que a envie. Que a partilhe. Muitas soluções sólidas nasceram de propostas inicialmente incompletas. A inovação começa quase sempre com alguém disposto a questionar o que está estabelecido.


Talvez seja o momento de envolver universidades, técnicos, cidadãos, autarquias e empresas. De criar canais reais de participação. De transformar indignação em propostas concretas.


Prevenir não é alarmismo.

É maturidade.

É responsabilidade.


Hoje agradeci o sol.

Mas agradecer não chega.


Se sabemos que estas situações vão continuar a acontecer, então não podemos continuar a tratá-las como exceção.


Que este sol não seja apenas uma pausa.

Que seja um ponto de partida.

 
 
 

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