
Hoje agradeci o Sol
Hoje esteve sol.
Ao fim de três semanas consecutivas de chuva, hoje esteve sol.
E eu só conseguia agradecer por poder estender a minha roupa.
Pode parecer uma coisa pequena. Mas não é.
Durante semanas, foi o desumidificador ligado aos bocadinhos, a janela aberta só o suficiente, a roupa espalhada pela casa numa tentativa quase frustrada de a secar. Pequenos incómodos que desapareceram assim que o sol apareceu. E foi nesse instante, enquanto estendia roupa, que me ocorreu outra realidade.
Há quem não tenha roupa para estender.
Há quem não tenha onde a estender.
Há quem tenha visto o vento e a chuva levarem tudo.
Fala-se muito de reconstrução em termos financeiros.
De seguros.
De apoios.
De recomeços.
Diz-se que o dinheiro se volta a ganhar.
Mas quase não se fala do que fica por dentro.
Como se sobrevive psicologicamente a perder tudo?
Como se volta a sentir segurança quando o som do vento passa a ser ameaça?
Como se volta a dormir descansado quando a chuva deixa de ser romântica e passa a ser medo?
Já ajudei com aquilo que estava ao meu alcance.
Mas tenho pensado noutra dimensão da ajuda.
Não na ajuda que repõe o que foi perdido.
Na ajuda que permite voltar a estar bem.
Talvez não esteja em grandes gestos.
Talvez esteja em presença.
Em comunidade.
Em não deixar ninguém atravessar o silêncio sozinho.
Porque reconstruir uma casa pode ser relativamente rápido.
Reconstruir a sensação de segurança pode levar muito mais tempo.
Hoje agradeci o sol.
Mas também pensei que, enquanto houver alguém a recomeçar do zero, o nosso papel não é apenas ajudar a reconstruir paredes. É ajudar a reconstruir chão emocional. E isso começa por não esquecermos.
Mas é aqui que precisamos de ir mais longe.
Não basta reagir depois da tragédia. É urgente prevenir antes da próxima.
Tempestades desta dimensão podem ser menos frequentes, mas as cheias e os incêndios fustigam o nosso país há décadas.
Ano após ano repetem-se cenários semelhantes. Ano após ano contamos prejuízos. E continuamos excessivamente dependentes da resposta de emergência.
Precisamos de soluções estruturais.
Precisamos que o Governo pense estrategicamente e crie uma estrutura permanente de prevenção e resposta, uma equipa técnica multidisciplinar dedicada à antecipação, mitigação e gestão destes fenómenos.
Que estude exemplos de países que conseguiram reduzir impactos.
Que analise modelos de planeamento urbano, proteção civil e apoio psicológico pós-catástrofe.
Que adapte o que funciona à nossa realidade.
Mas isto não é apenas responsabilidade governativa.
É responsabilidade coletiva.
Se alguém tiver uma ideia (por simples ou imperfeita que pareça) que a escreva. Que a envie. Que a partilhe. Muitas soluções sólidas nasceram de propostas inicialmente incompletas. A inovação começa quase sempre com alguém disposto a questionar o que está estabelecido.
Talvez seja o momento de envolver universidades, técnicos, cidadãos, autarquias e empresas. De criar canais reais de participação. De transformar indignação em propostas concretas.
Prevenir não é alarmismo.
É maturidade.
É responsabilidade.
Hoje agradeci o sol.
Mas agradecer não chega.
Se sabemos que estas situações vão continuar a acontecer, então não podemos continuar a tratá-las como exceção.
Que este sol não seja apenas uma pausa.
Que seja um ponto de partida.




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